quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Leitura do filme Chove Sobre Santiago à luz da discussão sobre cidadania e direitos humanos



Dirigido por Helvio Soto, cineasta chileno que foi exilado após o golpe de Estado ocorrido no Chile em 11 de setembro de 1973, o filme Chove Sobre Santiago é de 1975, e relata justamente os acontecimentos do dia do golpe, os quais são intercalados com cenas ocorridas nos anos anteriores ao golpe, desde quando Salvador Allende vence as eleições presidenciais em 1970 e dá-se início a um plano para prejudicar seu governo que culmina no golpe. O filme tem seu final no enterro do poeta chileno Pablo Neruda, o qual apoiava o governo da Unidade Popular e faleceu em 23 de setembro de 1973, pouquíssimos dias depois do golpe. Precisamente, o filme foi proibido de ser exibido no Chile pelo regime militar.
A coalizão Unidade Popular, a qual era representada por Allende, apesar de assumir o poder em 1970 e conseguir implementar mudanças significativas no país, sofre com as sucessivas tentativas realizadas para fragilizar seu governo, facilitadas pelo fato de que boa parte do alto escalão do Estado chileno continuou o mesmo do governo de Eduardo Frei, que governou o Chile de 1964 a 1970 quando Allende que vence as eleições contra Jorge Alessandri, candidato que era do partido de Frei. O governo de Frei também tinha apoio norte-americano, o qual foi decisivo nesse processo de fragilização do governo de Allende e no golpe de 1973.
O país que inicialmente, com o governo de Allende, vê mudanças importantes para a construção da democracia, passa a assistir a um processo de sucessivos boicotes motivados pelos interesses norte-americanos, do empresariado estrangeiro e da burguesia chilena. Retira-se o fornecimento de itens básicos para a vida da população, como por exemplo o leite, conforme é mostrado no filme, com o intuito de comprometer a imagem do governo de Allende diante da população, e essa estratégia consegue dar resultados. A situação que se instaura com o fim do fornecimento de bens importantes para a população, do estímulo à realização de diversas greves pelo país e outras tentativas de boicote, nos leva a notar que ocorre um retrocesso no que diz respeito a ideia de cidadania, sobretudo, nesse caso, no que se refere aos direitos sociais, que tratam do direito de ter participação na riqueza coletiva.
Percebe-se nessa influência internacional, não apenas dos norte-americanos, mas também das outras ditaduras já instauradas na América Latina no período, aquilo que foi abordado por Carvalho (2002) como sendo uma crise do Estado-nação, que seria ocasionada, entre outras coisas, pela internacionalização do sistema capitalista, a qual é cada vez mais acelerada por conta dos avanços tecnológicos, e isso acaba resultando numa redução do poder dos Estados, que agora sofrem a interferência dos outros, afetando fortemente a natureza dos direitos já existentes assim como o processo de criação, ou não, de novos direitos, sobretudo no que diz respeitos aos direitos políticos e sociais, conforme é apontado pelo autor, lembrando que a construção da cidadania está intimamente relacionada a forma como as pessoas se relacionam com o Estado e com a nação, sendo que o ideal para a cidadania é que exista uma relação positiva das pessoas com o Estado e a nação, pois as pessoas se tornam cidadãs, dentro da noção de cidadania como nós a conhecemos, à medida em que passam a se sentir parte de uma nação e de um Estado.
Sobre isso merece destaque outra observação feita por Carvalho (2002), que é a noção de que a identificação com a nação pode ser mais forte do que a lealdade ao Estado. Isso é visto claramente no filme na cena em que milhares de chilenos estão presos no Estádio Nacional vendo os militares agredindo alguns dos que contestam suas atitudes. Os chilenos presos, em certa altura, começam a cantar um hino que expressa a lealdade deles para com a nação chilena, em um momento no qual se veem numa situação em que o Estado se mostra como algo completamente estranho à ideia de nação. Essa situação, segundo Carvalho, se explicaria pelo fato de que a identidade com a nação, se deve a fatores como religião, língua e lutas e guerras contra inimigos comuns, enquanto que a lealdade ao Estado dependeria do grau de participação na vida política, participação esta que já se via completamente impossibilitada para o povo chileno no dia 11 de setembro de 1973.
Da constatação de que não haviam mais direitos políticos para os chilenos, chegamos a outro problema: conforme Carvalho (2002), se não tem direitos políticos, não existem direitos civis, os quais englobam as liberdades individuais como a liberdade de opinião e organização, e sobretudo o direito à vida. Isso quer dizer que a conquista de melhorias significativas em prol da construção da democracia pela qual o Chile vinha passando, foi seguida por uma supressão de direitos e garantias, um imenso retrocesso no que diz respeito a cidadania do povo chileno, visto que os 3 tipos de direitos necessários para a cidadania se encontravam profundamente comprometidos.
Para além dessas observações, percebe-se claramente um total desrespeito aos direitos humanos, pois, conforme o observado por Benevides (2015), ainda que as pessoas de um país não tenham seus direitos de cidadania respeitados, visto que a cidadania trata dos direitos e deveres que se circunscrevem nos limites de um Estado-nação, elas ainda possuem direitos humanos fundamentais, pois estes são universais e naturais, ou seja, não dependem da realidade específica de um país, e com isso, portanto, se estendem a todos os seres humanos. Isso se dá porque os direitos humanos se referem à pessoa humana independentemente das características físicas, culturais, da classe social, da nacionalidade, dos direitos de cidadania contemplados no país em que cada um vive, e até mesmo da personalidade que cada ser humano possa ter. Logo, em vista desses direitos fundamentais, nenhum ser humano pode ser torturado, humilhado cruelmente ou ter sua vida tirada por outros, pois o núcleo dos direitos humanos é o direito à vida. Além disso, também é direito fundamental de todo ser humano o de ser julgado imparcialmente e poder defender-se judicialmente. Nota-se que todos esses direitos estavam severamente desrespeitados no golpe, visto que os militares julgavam arbitrariamente aqueles que os contestavam e com um total desrespeito à vida dessas pessoas. Benevides (2015) ainda nos leva a refletir sobre o fato de que havia o consentimento dos países vizinhos ao Chile, dos quais muitos já se encontravam em ditaduras, e dos norte-americanos, com as violações aos direitos fundamentais cometidos no Chile, sendo que o que deveria se esperar desses Estados na verdade é que eles interferissem no Chile em prol  do respeito aos direitos humanos, pois, dado que os direitos humanos são universais e naturais, eles superam as  fronteiras jurídicas e a soberania dos Estados, e, no entanto, o que se observava no Chile eram que os interesses, sobretudo econômicos e políticos, estavam colocados acima do respeito aos direitos humanos.
Também vale mencionar o que diz Ruiz (2009), o qual aponta que apesar de ser difícil falar acerca do horror e sofrimento gerados pelos períodos de repressão ocorridos na história humana, notadamente no século XX, é imprescindível que eles sejam narrados pelas testemunhas, por mais que a narração delas tenha um viés pessoal e não consiga passar integralmente toda a barbárie que elas testemunharam. Esse processo de narrar os acontecimentos, quando aplicado ao caso específico do filme analisado, se mostra importante para permitir que as gerações chilenas tenham o direito à memória respeitado, isto é, o direito de saber o que aconteceu, e ao mesmo tempo o dever de memória, que é o dever de lembrar e passar adiante esses acontecimentos para que as próximas gerações também se indignem com as injustiças que foram cometidas e não permitam que as atrocidades ocorridas no período militar chileno sejam repetidas, pois aqueles que ouvem a narração, segundo Ruiz (2009), se convertem em testemunhas também. Esse resgate e disseminação da memória não significa que o passado será totalmente resolvido, mas permite tirá-lo da indiferença e do esquecimento ao atualizar as questões dele decorrentes, muitas das quais ainda apresentam seus desdobramentos nos dias atuais. Nas palavras do autor:
[...] É importante que os fatos sejam narrados pelas testemunhas, ainda que o testemunho nunca faça jus ao que aconteceu, pois é na precisão de vários acontecimentos que não foram contados e que se amontoam nas ruínas da história que se poderá sentir o sopro do que não tem expressão. [...] Assim, apesar da impossibilidade de narrar [os acontecimentos integralmente], o pior pesadelo para quem testemunha e vive o sofrimento é não poder contá-lo para ninguém, é correr o risco de que ninguém tome conhecimento do suplício sofrido e a injustiça se perpetue na ignorância e em um silêncio vazio, ausente de intérpretes que possam lhe dar sentido. (RUIZ, 2009, p.134)
Fazer com que as pessoas tomem conhecimento do que aconteceu no golpe de Estado de 1973 do Chile parece ser exatamente o que o diretor Helvio Soto procura ao produzir o filme, pois notadamente a película traz muito da visão de Soto acerca do golpe e representa uma lembrança ainda muito viva na mente do diretor, dado que ele foi exilado por conta do golpe e produziu o filme pouquíssimo tempo depois do mesmo.  Desse modo, fica evidente que o filme também apresenta um forte caráter de documentário, pois foca muito mais em retratar fatos que realmente ocorreram, ainda que pelo viés da visão de Helvio Soto, do que em contar uma história fictícia. Neste sentido o recurso cinematográfico se mostra de grande relevância, pois de acordo com o próprio Ruiz (2009), “[...] o essencial do sofrimento não pode ser falado, pois é feito de silêncios” (p.139), de modo que aquele que assiste consegue captar com maior realismo a situação que se apresentava ao povo chileno, mas nunca, é claro, integralmente como aqueles que viveram e tiveram a experiência.
Helvio Soto seria, desse modo, conforme a interpretação de Ruiz (2009) uma testemunha, pois ele recupera uma parte da realidade da História chilena que poderia ficar perdida no passado se ninguém fizesse nada. A fala de uma das personagens ao final do filme, na cena do velório do poeta chileno Pablo Neruda, evidencia a intenção do diretor ao produzir o filme: “ninguém pode testemunhar sem memória”, o que torna claro que ele tinha a intenção de manter um dos episódios mais marcantes da História chilena vivo e eternizado na memória do seu povo, permitindo que as novas gerações conheçam seu passado. Ao mesmo tempo, também se nota o propósito de, de algum modo, tentar resgatar a dignidade humana dos que foram excluídos e vencidos, e fazer justiça àqueles que foram vítimas do golpe, e também àqueles que ainda seriam vítimas da ditadura, dado que, ao final do filme, ela, que se tornaria uma das mais violentas ditaduras latino-americanas, ainda estava apenas começando.

Análise de elementos cinematográficos e iconografia

Iluminação
O filme emula a iluminação ambiente, sendo que a utilização de iluminação artificial serve para realçar a iluminação natural, tentando trazer um caráter documental ao filme, se utilizando da iluminação disponível, e assim, trazendo uma maior realidade ao mesmo. Este tipo de iluminação perdura por toda a película.

Sonografia
O filme tem sua trilha sonora assinada por Astor Piazzolla, que basicamente pode ser dividida em dois momentos distintos, no que se refere a linha de temporalidade que vai de 1970 até 1973, a trilha sonora aparece em meio as reuniões daqueles que apoiavam Allende, e permeia os discursos dos mesmos, reforçando o tom de esperança que eles possuíam. Já em um segundo momento, quando Allende é morto no dia do golpe, a trilha sonora assume um tom de tristeza, reforçando o caráter dramático que o final do filme tenta passar ao público.
Logo, torna-se claro no filme, que as músicas estão associadas a reuniões de pessoas, seja em momentos de contentamento ou não. Percebe-se que por vezes temos a figura dos cantores, e não somente a sua voz. Isso reforça que o sentimento anunciado na música é mesmo que reside nos cantores e demais personagens presentes. Um exemplo disto é o coro daqueles que afirmam que Neruda, Allende e o povo chileno estarão presentes agora e sempre, acompanhado pela música de Piazzola, na cena do enterro de Neruda. Assim vemos a unidade encontrada no povo, os personagens mostram que, apesar de tudo que aconteceu, o povo Chileno iria continuar na luta pela liberdade com determinação e vontade.
Pode-se ouvir, em algumas cenas, o tic-tac do relógio que permeia o som de fundo, mostrando que o tempo está passando. Isso ocorre principalmente nas cenas em que algum personagem precisa tomar decisões, e também deixam claro que o golpe se aproxima, atribuindo caráter de urgência.

Enredo
             A história é contada em terceira pessoa e através da câmera (um observador ideal) o espectador vê as ações que estão ocorrendo em lugares e temporalidades distintos. O filme, amparado por este recurso, conta com duas linhas de temporalidade que se intercalam no desenvolvimento da história, uma delas trata dos acontecimentos do dia 11 de setembro de 1973, o dia do golpe, e a outra trata do momento em que Allende vence as eleições em 1970, até o dia em que o golpe é realizado, mostrando a arquitetação do golpe, com os boicotes econômicos e manobras políticas que levaram a tal acontecimento. Existe uma preocupação clara em fazer com que o espectador consiga entender sem dificuldade o momento em que fatos estão ocorrendo e ao mesmo tempo mantendo uma certa ordem cronológica entre os acontecimentos, para tanto é utilizado o um recurso de movimento de câmera, o enquadramento, que focaliza relógios e calendários. Estes indicam os horários do dia do golpe, temporalizam a ação e informam o espectador.
Cortes de Cenas
Os cortes de cena procuram conectar situações, como no caso do final de uma cena em que um personagem começa a fechar uma gaveta, e imediatamente, antes dele terminar de fechar a gaveta, dá-se início uma nova cena com um personagem terminando de fechar uma gaveta em outro lugar ou a cena em que um senhor escuta uma rádio e arruma a sintonia do rádio em seu carro, e imediatamente, antes que ele termine de fazer isso, uma nova cena, com uma mulher arrumando o rádio em casa, dá continuidade a trama. Em geral, as cenas deste filme são articuladas de modo a mostrar uma relação entre os acontecimentos mostrados.

Movimentos de Câmera
A obra utiliza em uma das primeiras cenas do recurso do movimento dentro do quadro, os objetos de cena que são os carros de guerra são filmados de frente enquanto se movimentam e enchem a tela. Isso resulta na impressão de eles iriam passar por cima do espectador e de tudo que a ele se opusesse, preenchendo a tela.
Por vezes a câmera se desloca lateralmente num movimento panorâmico à procura do personagem. O diretor usou desta estratégia para informar e enfatizar a ideologia do personagem retratado, mostrando por diversas vezes, neste movimento, fotografias de Allende, Che Guevara, Karl Marx, e demais líderes da esquerda. No entanto, há uma curiosa cena em que a câmera percorre uma parede com fotos eróticas sugerindo um vazio ideológico dos personagens (empresários do Chile). O movimento de câmera evidencia e contextualização a ação, como fez ao mostrar o símbolo ITT (empresa de telefonia norte-americana que liderou um grupo empresarial na busca pela desestabilização econômica do Chile).
Percebe-se também que a câmera focaliza janelas no decorrer do filme, mostrando civis observando através delas, denotando uma situação de falta de liberdade de expressão e opinião, visto que os personagens parecem apreensivos.

Iconografia
O poético título parece tentar esconder as tensões da guerra. Isso vai de encontro com a fachada de normalidade característica da ditadura, ao mesmo tempo em que denuncia o autor do golpe, pois apesar de não ser explicitado no filme, este era o nome da operação arquitetada pelas forças reacionárias do Chile que culminou com o golpe de Estado de 1973.
O filme faz questão de retratar o presidente Salvador Allende real. Para tanto, é usado fotografias e até mesmo uma película com depoimento do presidente discursando em seu idioma, o espanhol. Isso reforça ideia do filme em manter-se próximo a esfera do real, inserindo sempre que possível, elementos desta esfera mesmo sob condição de interrupção da sua linearidade, ou seja, de um filme produzido em língua francesa permite-se inserir a língua originaria do personagem. Ainda nessa linha de tentar manter a imagem real de Allende, nota-se que o ator que o interpreta nunca tem seu rosto completamente mostrado, o que também indica o propósito de preservar a imagem real do presidente, visto que os acontecimentos ainda eram muito recentes e também demonstra o intuito do diretor de retratar o presidente como um misto de mártir e herói se tratando da história chilena. A cena da invasão do Palácio de La Moneda, que mostra o assassinato é de suma importância, por refutar a ideia de suicídio transmitida como causa morte do então presidente.
O filme retrata de forma simbólica e sutil o ganho e perda de direitos. Em 1971 durante a celebração da conquista da oferta de leite às crianças, o ministro das finanças dá uma vaquinha (bibelô) para ela em garantia do seu direito ao leite.  Em 1973 o pai, que é presidente da fábrica, tira o bibelô da criança simbolizando que esta não terá mais direito ao leite devido ao golpe que está prestes a se consumar. A criança quando perde seus direitos, simbolizados pelo objeto se entristece. E por fim, percebe-se que de 1971 a 1973 as reuniões da esquerda ocupam lugares menores, isso denuncia declínio da esquerda, frente a ascensão da direita.

Referências
BENEVIDES, M. V. “Cidadania e Direitos Humanos”. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 2015.
CARVALHO, J. M. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
RUIZ, C. B. Justiça e Memória: para uma crítica ética da violência. São Leopoldo: Unisinos: 2009.

CHOVE sobre Santiago. Direção: Hélvio Soto. Produção: Film Marquise - França; Studios de Long Metrage - Bulgária, 1975. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=gi4KFRCBDkM>. Acesso em 30/11/2015.

ANÁLISE FÍLMICA: “PRA FRENTE, BRASIL (Brasil: dir. Roberto Farias, 1982)




ENREDO
No filme, Jofre (Reginaldo Faria), ao dividir um táxi com um militante de esquerda, é tido como "subversivo" pelos órgãos de repressão. É preso e submetido a inúmeras sessões de tortura, por torturadores operantes à margem do Estado, financiados por um grupo de empresários inescrupulosos. 
Miguel (Antônio Fagundes) e Marta (Natalia do Valle) tentam encontrá-lo através dos meios legais, mas se deparam com a relutância da polícia em investigar o desaparecimento. Com o telefone grampeado, Miguel recebe Mariana (Elizabeth Savalla) em casa, ferida após um fracassado assalto a banco. É quando ele fica sabendo da atuação de um grupo de repressão política patrocinado por empresários; as investigações de Miguel prosseguem e levam ao grupo de empresários em que atua seu próprio patrão.



Figure 1. Comemoração do Pelé após gol realizado na Copa do Mundo de 1970

ANÁLISE FÍLMICA
“Pra frente, Brasil” foi interditado pela censura sob a alínea D do artigo 41 da Lei 20.943, de 1946, que previa "interdição quando a obra for capaz de provocar incitamento contra o regime vigente, a ordem pública, as autoridades e seus agentes". A exibição foi liberada por instância superior e sem cortes, estreando em 1983; foi uma das primeiras películas a retratar a repressão da ditadura militar brasileira (1964–1985) de forma aberta. É um filme simples e direto, que chama atenção para as torturas nos “anos de chumbo", mostra que o despertar para os acontecimentos pode acontecer repeninamente. Assemelha-se a um documentário, um lembrete de que não podemos esquecer a ditadura.
O filme aborda justamente os sequestros efetuados pelo governo para exterminar possíveis movimentos subversivos e/ou comunistas. Já na primeira cena temos violência imposta por um grupo de torturadores; também é possível notar a falta de envolvimento político dos personagens.
Em 1970, na época dos anos de chumbo e do dito "milagre econômico", o Brasil vibra com a Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo e, enquanto isso, prisioneiros políticos são torturados por agentes da repressão oficial, fazendo pessoas inocentes de vítima também. O futebol aparece em Pra frente Brasil como um elemento importante,  tanto que o início de um novo interrogatório a Jofre é interrompido por causa de uma partida: o Brasil vai jogar e, qualquer tarefa, mesmo de grande relevância, pode esperar os noventa minutos de um jogo que simboliza o sucesso da pátria verde e amarela. A Copa paralisa atividades para que o brasileiro se veja como um vencedor após os 90 minutos.
Dentro de um cenário de repressões, censuras e controle das mídias, pouco se sabia sobre as torturas realizadas com o comando do militarismo. Os “anos de chumbo” ganhavam uma cortina blindada através da publicidade enganosa de crescimento econômico e país de sucesso criada pelo governo. Imagem que era atrelada à seleção brasileira de futebol, que vivia sua grande fase com a chance do tricampeonato; o slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”, exemplificava isso.


Figure 2. Cena de tortura conhecida como "Cadeira Elétrica" durante a Ditatura Militar

ILUMINAÇÃO
No filme, temos:
- cenas escuras: quando o Jofre é torturado, iluminação escura para ressaltar a dramaticidade.
- geralmente as cenas externas são à luz do dia.
- luz clara: ressaltando a felicidade, como por exemplo na cena final em que o Brasil é campeão.

SONOGRAFIA
A sonografia do filme é instrumental, com as seguintes sensações:
- romantismo: quando Miguel e Mariana se reencontram e ela pergunta se pode ficar em sua casa.
- esperança: quando Marta vê que os filhos estão bem, mesmo  sabendo que a polícia foi à casa dela; quando Jofre pensa que escapou dos torturadores.
- suspense: quando Mariana e um companheiro, após uma tentativa de sequestro frustrado em que ela foi baleada, veem um corpo e depois se encaminham à casa do Miguel.
- ação: cenas de tiroteio.
- desolação: no final, quando Mariana morre temos uma música de tristeza; o interessante, é o contraste com a imagens da seleção ao conseguir o tricampeonato.


Figure 3. Discussão entre Miguel e Marta.

CORTES DE CENAS
No começo do filme, temos um travelling, com câmeras fazendo imagem panorâmica no intuito de mostrar a paisagem.
É usado o close, como por exemplo quando os personagens estão vendo o jogo do Brasil: isso mostra a emoção que eles estão sentindo.
O corte meio plano americano, no qual o enquadramento é feito da cintura para cima, presentes em cenas de diálogo.
Em cenas de violência o corte é abrupto, para demostrar quanto a própria cena é violenta.
A maioria das cenas tem o ritmo rápido, com diálogos mais curtos: isso é interessante para contar várias pontos de vista e em cenas de ação.

AUTORES RELACIONADOS
É difícil esperar que existam direitos para os cidadãos durante uma ditadura, muito mais difícil acreditar que seus direitos humanos sejam respeitados. Sem que haja democracia, está implícito que não existe cidadania, justiça, respeito aos direitos humanos e, consequentemente, a paz. Esses conceitos permanecem interligados e interdependentes (BENEVIDES, Maria).
No filme vemos retratados todos esses aspectos: ausência de democracia, de respeito aos direitos humanos - a Jofre e comunistas da época -, de justiça - por não considerarem criminosos os torturadores - e, finalmente, da paz. O desrespeito aos Direitos Humanos durante os "anos de chumbo" trouxeram consequências fatais a milhares de pessoas inocentes e àqueles ligados a vida política da época; essa dívida não foi sanada até os dias atuais, agravando o cenário para os defensores de DH, invisibilizando todo o trabalho de garantir direitos fundamentais, como a vida, à presos políticos da ditadura e o direito a julgamento (justiça) até mesmo daquela classe média que usou de tortura durante a ditadura. ae sendo retratados como defensores de presos comuns. E o fim das necessidades dessa mesma classe média acabaram por deturpar, na mídia, a motivação dos defensores de DH.
Segundo Solon, a questão dos direitos humanos é ligada à memória. As pessoas que foram torturadas e desapareceram, tem esse direito violado. Nosso período de sombras foi a ditadura. No filme “Pra frente, Brasil, o contexto geral para população não era tratar a ditadura como algo ruim e repressivo, na verdade o clima era de festejo. Devido ao “Milagre Brasileiro” e à propaganda oficial, a maior parte acreditava em bons indicadores econômicos (inflação e desemprego baixos, crescimento econômico). A falta de um direito afeta todos os outros. No período em que se passa o filme, tínhamos censura e falta de liberdade, e mesmo que todos os outros direitos fossem atendidos, a falta de um significa a não-cidadania.


Figure 4. Cena de tiroteio ao ar livre. Repressão na Ditadura Militar.



BIBLIOGRAFIA
BENEVIDES, Maria. “Cidadania e Direitos Humanos”,
VIOLA, Solon Eduardo Annes. “Entre silêncios e esquecimentos: a supressão do Estado de Direito durante o regime militar”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pra_frente,_Brasil

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O que é cidadania, direitos e desigualdades?

Segundo Maria Benevides, a cidadania está atrelada a noção de direitos e deveres previstos em um corpo jurídico-político (a constituição), que define quem pode ser considerado cidadão, quais os direitos e deveres do mesmo, quais direitos civis, políticos e sociais são assegurados e etc. Desse modo, a noção de cidadania está atrelada a um corpo político, pode mudar ao longo do tempo e varia de país para país. Crianças e deficientes mentais geralmente não são considerados cidadãos por não estarem aptos a exercer sua cidadania.
Já igualdade é um conceito bastante amplo, mas de forma geral é a busca de criar um tratamento isonômico entre todos os cidadãos, levando em consideração suas diferenças, com o intuito de dar um tratamento especial aos menos privilegiados e oprimidos e criar uma sociedade mais equânime. Ademais, o conceito é multidimensional e pode ser usado para se referir a igualdade formal, a igualdade social, política, econômica e etc.
Nesse contexto, em detrimento da igualdade existe o seu contrário – a desigualdade. Ela está atrelada a noção de que as diferenças de ordem sensível (física, gênero, cor e etc.) geram relações de poder que não são isonômicas, equânimes e justas, graças ao tratamento não igualitário e inadequado dado aos diferentes. Criam-se, então, abismos que devem se corrigidos pela busca da igualdade.
Por fim, o conceito de diferença está relacionado a pluralidade de formas sensíveis, as distinções de cor, raça, etnia, físicas, gênero e etc. que não necessariamente geram desigualdades. Desse modo, deve-se levar em conta que a desigualdade e diferença são conceitos distintos e que não devem ser confundidos.
Bruno Martins 
Estudante de Bacharelado em Ciências e Humanidades da UFABC



O conceito de cidadania durante o Período Colonial Brasileiro e a Ditadura Militar

No período colonial, segundo José Murilo de Carvalho, a cidadania era praticamente inexistente. Os direitos políticos eram muito reduzidos, o voto era censitário, os analfabetos (90% da população) não podiam votar, os direitos civis não eram assegurados, não havia consciência cidadã, o acesso a educação era extremamente limitado e não existiam direitos sociais.
Além disso, os escravos eram tratados como objetos e mercadorias e não possuíam nenhum tipo de direito, as mulheres eram excluídas do processo político e até mesmo os indivíduos das classes privilegiadas não podiam ser considerados cidadãos, uma vez que não havia divisão entre o setor público e privado, não havia igualdade formal perante a lei e estado de direito consolidado, os direitos civis não eram assegurados e a justiça era ao mesmo tempo pública e privada.
Desse modo, nesse período não se construiu uma noção de cidadania e a extrema desigualdade social aliada a uma grande concentração de poder e a presença de instituições políticas e econômicas (escravismo e latifúndio monocultor) exclusivas, extrativas e antidemocráticas praticamente eliminaram qualquer possibilidade de formação de um Estado liberal democrático que assegurasse o direito à cidadania.
Já no período da ditadura militar há um retrocesso na questão da cidadania em relação aos governos anteriores. Através doas atos institucionais, explicados no material audiovisual sobre o tema, os direitos vivis e políticos chegam ao ponto de serem totalmente cassados através do AI-5, há um grande desrespeitos aos direitos humanos, direitos civis básicos como respeito à integridade física e habeas corpus são totalmente desrespeitados e surge uma cultura patrocinada pelo governo militar de associação entre direitos humanos e direitos de “bandido”, segundo Maria Benevides.
Entretanto, nesse cenário assombroso, os direitos sociais são ampliados como forma de dar legitimidade ao regime. São criados os fundos rurais, os trabalhadores do campo ganham uma série de benefícios e é criado o INSS (instituto nacional de previdência social).
Dessa forma, pode-se dizer que tais períodos prejudicaram muito à formação de uma cidadania ativa, completa e multidimensional, a formação de uma luta pelos cidadãos e de uma consciência e educação sobre a questão da cidadania. Ademais, deixaram vestígios até os dias atuais através da propagação de uma cultura popular deslegitimadora da cidadania ativa completa.
Bruno Martins 
Estudante de Bacharelado em Ciências e Humanidades da UFABC

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

ATENÇÃO


Plantão de Dúvidas - HOJE - Sala 374 / Bloco Delta 
19 horas até 22 horas.
Gabarito do exercício de Análise Fílmica

Elabore uma breve análise fílmica de Quanto vale ou é por quilo (Brasil: dir. Sergio Bianchi, 2005) levando em consideração os seguintes elementos discutidos em sala de aula:
1) zona não visível (Segundo Marc Ferro), 3.0
2) leitura histórica do filme e leitura cinematográfica da história, 3.0
3) iluminação, som, cenário, tomadas e cortes de câmera e ritmo. 4.0
Zona não visível – O aluno deve verificar que elementos do filme retratam discussões da época em que foi realizado. O que aconteceu no início do século XXI que favorece uma produção como essa. Por ex, o fortalecimento de movimentos civis de empoderamento dos negros por meio de diversas políticas públicas, como as referentes às memórias dos quilombolas.
Ex. grupo Morena

“De acordo com a análise de Marc Ferro, os filmes são frutos do momento histórico em que são produzidos e dialogam com o mundo que o rodeia, com ou sem a intencionalidade do diretor. Tem-se na zona do não visível os “lapsos” que denunciam a visão de mundo do autor, o público a quem a obra é direcionada, o momento histórico em que foi filmado e o regime de governo da época em que o filme foi produzido.
Em “Quanto vale ou é por quilo?”, um dos lapsos que revelam o período em que a obra foi filmada é a cena que relata a história da ex-escrava alforriada, Joana. A cena acontece em 1799, e para expressar a 'ascensão social' de escrava para dona de escrava, ela junta seus escravos e orgulhosa tira uma fotografia. Não foi considerado ao escrever a cena que a fotografia só chegou ao Brasil em meados de 1830. O momento político vivido em 2005 tem muita influência no debate trazido pelo filme, uma vez que, após os anos de ditadura, foi no governo de 2002 que os movimentos sociais tiveram mais autonomia e liberdade para discutir e reivindicar suas pautas específicas com a população.”

 Leitura histórica do filme (premiações, quem foi o diretor, quem foi a equipe, curiosidades)
Leitura cinematográfica da história (Como a história, no caso o período da escravidão (I) e início do século XXI (2) foi contada. Aqui cabe falar que foi contada comparativamente com cenas do passado e do presente alternadas para marcar a permanência das relações de poder/ humanas. Uso de citação de documentos para atestar uma certa “veracidade” dos fatos passados.

 Iluminação, som, cenário, tomadas e cortes de câmera e ritmo.
Iluminação – claro, escuro, natural, artificial,noite, dia (análise sobre isso). Ex. quando de noite há a expulsão de um outro caminhão de Ong do território da Ong retratada – análise, mostra a escuridão, nebulosidade nas relações dessas Ongs interesseiras.
Som – músicas e sons (ex. sons do batuque, objetivo, retratar o Brasil colonial)
Cenário – Ruas de terra batida, matagal (Brasil colonial), cidade, favela, urbanidade.
Tomadas e cortes de câmera – close, meio plano americano (da cintura para cima), travelling, geral. Cortes: abruptos, por ex, quando há o assassinato dos menores. Objetivo: mostrar o rompimento na vida.
Ex. tomadas de câmera citada pelo grupo Scarlett: Esteticamente, os atores aparecem posicionados, no “fim” de suas pequenas histórias, exatamente da maneira como em outra história já relatada, tais enquadramentos contribuem para que o sentimento de continuidade se propague pelo filme.
Ritmo – devagar, rápido (cenas curtas ou cenas longas, o porque), cenas curtas (maioria) Obj. profusão de pequenas histórias, alternância passado-presente.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre trabalho final

Prezados alunos,

Respondendo algumas dúvidas enviadas por email, a proposta do trabalho final será a que está na ementa do programa:

A turma deve se dividir em grupos e escolher uma questão relacionada à temática do curso que esteja representada em um filme de escolha livre. Terá que realizar uma análise fílmica citando dois autores da bibliografia estudada (máximo 5 páginas TNR 12, espaçamento 1,5/  mais 2 páginas de iconografia e bibliografia totalizando 7 páginas).
Além de citar os dois autores, levar em conta a linguagem cinematográfica analisando elementos como iluminação, sonografia, enredo, cortes de cenas, movimentos de câmera.


A bibliografia a ser utilizada é a discutida durante o curso (não é mais necessário utilizar a bibliografia sobre análise fílmica - Ferro, Syd Field e Comparato).

A entrega do trabalho foi ADIADA para o dia 2 de dezembro bem como as apresentações.

A aula do dia 25.11 está reservada para eventuais dúvidas rf. ao trabalho final. Na próxima aula, 18.11, discutiremos os textos relativos a Ditadura, cf. ementa. (AULA Entre silêncios e esquecimentos: a supressão do Estado de Direito durante o regime militar).

att

Ana Maria

terça-feira, 10 de novembro de 2015

*** A T E N Ç Ã O ***

AMANHÃ (dia 11/11/2015) NÃO HAVERÁ AULA.
A Profa. Ana está doente e, por isso, a aula está cancelada.

POR ISSO:

A próxima aula (18/11) será sobre a Ditadura Militar (a PROVA II foi cancela, considerando que a maioria da turma foi bem na primeira prova);

A aula de 25/11 será a APRESENTAÇÃO dos trabalhos;

POR FAVOR, avisem os colegas.
Obrigado.